O elegante Cemitério da Recoleta

     Para quem não conhece ou nunca ouviu falar, soa no mínimo esquisito visitar um cemitério que é um dos principais pontos turísticos da capital Argentina.

     E o que tem lá que o torna tão especial?

     O Cemitério da Recoleta é considerado um museu a céu aberto. Foi projetado por um arquiteto francês no século XIX e lá estão sepultados grandes personalidades argentinas: figuras históricas, políticos, artistas, cientistas, esportistas… inclusive dois prêmios Nobel estão lá (até a Argentina tem!), e seu morador ou melhor, sua moradora mais famosa (ao menos para os não argentinos) é Evita Perón.

     A aristocracia argentina gostava de ostentar sua riqueza nos túmulos, por isso muitos deles são considerados verdadeiras obras de arte. O que pra nós, torna-se uma pequena surpresa quando encontramos o túmulo da Evita. Acredito que assim como eu, muitos  a tem como um grande nome da história argentina, conhecida mundialmente, exaltada e interpretada por ninguém menos que Madonna; foi adorada pelo seu povo… descansa num dos túmulos mais simplórios escondidinho num corredor apertado, que só é identificado por ser um dos únicos que tem sempre flores novas e um grande número de pessoas que se espremem para conseguir tirar uma fotinho.

Túmulo Família Duarte – Evita Perón

    Na verdade, Evita é adorada por muitos e odiada por tantos outros. Evita morreu de câncer em 1952, e seu marido Péron mandou embalsamar seu corpo que ficou em um outro local. Após alguns anos, Perón foi derrubado do governo e exilado. O corpo de Evita foi sequestrado e “sumiu” por um tempo. Quando Perón retornou, conseguiu recuperar o corpo de sua mulher, mas faleceu logo em seguida.

     Os dois foram sepultados na residência oficial do governo. No período que ficaram lá, o país foi governado pela terceira esposa de Péron, Isabelita, que odiava e invejava Evita. Ela tinha como braço direito um ministro que também era astrólogo, um bruxo (el Brujo, como era chamado), que fazia Isabelita deitar sobre o caixão de Evita para “receber as energias” dela e quem sabe conseguir o carisma que tinha junto ao povão (cada uma…rsrsrsrs). Depois de um golpe militar, acabou a bruxaria. Perón foi para um outro lugar e Evita foi para a Recoleta, no túmulo de sua família. Portanto, lá deve-se procurar o túmulo da Família Duarte, onde está seu membro ilustre: Eva DUARTE de Perón.

    Dizem que bem próximo está sepultado seu maior inimigo, um general que sequestrou seu corpo depois que Perón caiu. Hoje são vizinhos! Tem tanta curiosidade lá… esse mesmo general teve também seu corpo sequestrado pela guerrilha, e depois de recuperado, a família construiu um mausoléu e o enterrou sob ele, para evitar vandalismo.

     Um outro túmulo interessante – mas não vi – é o de uma jovem que foi passar a lua de mel na Áustria, e o hotel em que estava foi atingido por uma avalanche. A própria mãe projetou a tumba, que tem uma estátua dela, em tamanho natural, usando o vestido de noiva e ao seu lado, seu cachorro que tanto adorava.

     E claro, tem as histórias de arrepiar também… uma moça que morreu repentinamente, acho que de infarto, foi enterrada às pressas para aliviar a dor da família. Um tempo depois a família verificou que o caixão estava remexido. Pensaram que podia se tratar de ladrões querendo roubar as jóias. Quando abriram, viram que ela estava em outra posição e haviam arranhões na tampa. Ela foi enterrada viva!! A pobre sofria de catalepsia! Daí veio a lenda que ela vaga pelo cemitério vestida de branco, é la dama de blanco…uuuuiiiiiii

Recoleta

     Esse lance do caixão é outra particularidade da Recoleta. Lá eles ficam dentro dos mausoléus porém, sobre a terra. Quando a gente passa e olha pelas janelinhas, dá pra ver os caixões velhos lá dentro!

     Como eu gosto muito de histórias interessantes, lá pra mim é um prato cheio. Gostaria muito de voltar lá e fazer um tour guiado, para saber de muitas outras e ver os túmulos que não vi ou não soube identificar.

     Mais uma razão para voltar à Buenos Aires!

Um amanhecer para chamar de meu

     A diferença já começou pela localização do hotel, longe do comum. O (muito bem) escolhido foi o Buenos Aires Grand Hotel, na Recoleta.

    O hotel fica na Av. Gal. Las Heras quase esquina com Callao (Las Heras y Callao como costumávamos orientar os taxistas) e de lá andamos muito, para todos o lados.

      O hotel em si é maravilhoso, novinho, vizinhança tranquila, sem barulho, quarto super confortável, temperatura sempre agradável, perfeito. Lá o que mais gostei foi  uma cortina automática de duas camadas: uma persiana colada à enorme janela e uma outra camada formada por uma folha única preta, que quando fechada não permitia a entrada de um único feixe de luz, perfeito pra dormir. E graças a essa cortina, tínhamos um amanhecer para chamar de nosso. No momento mais conveniente, um simples toque no botão, dava permissão ao sol para entrar lentamente no quarto, uma alvorada particular!

A foto não foi tirada por mim, mas o quarto é exatamente assim

A foto não foi tirada por mim, mas o quarto é exatamente assim

      Depois de sair da cama, ia até a janela, abria e ficava alguns minutos olhando as poucas pessoas que passavam pela rua, queria ver como estavam vestidas para ter noção do clima. Via pessoas de idade caminhando, corredores de rua com seus fones de ouvidos alheios a tudo, “homens de negócio”, os passeadores com seus cães… E logo estaríamos nos juntando a eles, seríamos um deles: vestidos com a mesma quantidade de roupas mas com nenhum cachorro, apenas uma mochila e nosso mapa.

     Ficar na Recoleta é quase que ficar em outra Buenos Aires. Que lugar agradável! Alguns poderiam dizer que é um bairro “meio longe”. Bom, depende do referencial. A intenção era fugir do óbvio, como já dito, e o óbvio seria o centro/microcentro que fica “pertinho de tudo”. De fato, mas também fica perto da aglomeração turística e do próprio vai e vem argentino, afinal como em qualquer outra metrópole, existe aquela selvageria urbana que estamos bem acostumados.

     Na Recoleta é diferente. Bairro charmoso, nobre,  com barracas que explodem de tantas flores, gente diversificada, educada,  as ruas largas, além dos passeadores várias pessoas passeando com seus cães e as calçadas sempre limpas, prédios de  arquitetura linda. Você anda observando cada um deles, analisando a decoração externa dos apartamentos,  e diante de tantas placas de aluga-se e vende-se dá para delirar um pouquinho escolhendo qual deles gostaríamos de adquirir.

Recoleta

      Depois de alguns dias, já estávamos nos sentindo moradores… a “pharmacia” na esquina, um Carrefour Express a dois quarteirões, as duas melhores sorveterias (Freddo e Persicco) ali bem pertinho…  lá na  Av. Santa Fe com a Callao o metrô, ou melhor, o Subte. E no sentido oposto, seguindo pela Callao a elegantérrima Av. Alvear. Andar pela Recoleta era obrigação prazerosa!