Retroceder nunca, render-se jamais

23 de outubro de 2009

Estava inquieta e distante zapeando com o controle remoto até que parei na Discovery Travel&Living. De repente, o foco dos meus pensamentos mudou: de algo muito bom para algo muito bom! Na verdade, parei de viajar em meus pensamentos e passei a pensar em viagens.

Não sei ao certo, mas acho que o programa era “Mochileiros” e o tema era meios de transporte em viagens. Mostraram algumas viagens de ônibus em países como Etiópia e Moçambique (já dá pra imaginar o naipe né) que percorrem mais de 600 Km em estradas péssimas, em ônibus tão confortáveis quanto um de linha (da década de 80); viagens de 4 a 5 horas que se transformam em 10, 12 graças as paradas para consertar a jabiraca. Coisas de mochileiros né.

Mas tudo vale a pena, se a “paisagem” não for pequena!

Durante meu mochilão pelo Chile/Argentina eu percorri grandes trechos de ônibus e vi que realmente vale a pena.

-> Los Caracoles – estrada que liga Chile-Argentina

No programa falaram também de viajar de moto (sempre lembro do Dr. Ernesto Che Guevara) até que chegaram no modo mais barato de todos: a carona. Foi aí que lembrei de um episódio que aconteceu nesse mochilão: peguei carona também! Foi algo que nunca imaginei fazer, pelas razões mais óbvias.

Estávamos, a Ana, eu e o Luiz (um brasileiro que conhecemos em Mendoza) no meio da Cordilheira dos Andes, mais especificamente na Puente Del Inca (quase fronteira com o Chile). O dia estava tão cinza que mal podíamos diferenciar as montanhas nevadas do céu. Lá existe uma única rua, ou melhor, a única estrada, que liga os dois países. Nevava tanto que esta estrada já estava inteira coberta, já não se via mais acostamento.

Após a sessão de fotos na Puente propriamente dita, resolvemos ir até a entrada do parque do Aconcágua, que alguém nos disse que ficava a uns 2 Km dalí. No entanto, já tínhamos sido avisados que estaria fechado por causa da nevasca, mas já que não tínhamos nada pra fazer mesmo…

Começamos a caminhada andando pela beira da estrada. O frio era de cortar, pois além da baixa temperatura, nevava forte e ventava muito. Apenas os olhos ficavam de fora. Já estava difícil de respirar, porque além de estarmos andando a passos rápidos, já estávamos a aproximadamente 3 mil metros de altitude. Só parávamos pra tomar goles de água. Foi quando resolvemos pedir carona até o Aconcágua.

Passava praticamente só caminhões, mas ninguém parou. Encontramos uma pessoa no caminho e ele nos informou que tinha mais uns 2 ou 3 Km até nosso destino, e já tínhamos andando uns 2. Trocamos olhares perguntando uns aos outros e interiormente para nós mesmos se deveríamos continuar. Unanimidade: retroceder nunca, render-se jamais.

Continuamos e chegamos. E como já sabíamos, estava fechado. Passamos pela cerca apenas para tirar fotos da placa da entrada. A neve estava fofa e a cada pisada, afundava até o joelho. Não vimos nada, porque como já disse, era tanta neve que mal víamos o que era montanha ou que era céu. Eu estava nos pés do pico mais alto da América do Sul e não sabia nem pra que lado ele estava. Nunca vi o Aconcágua. E o pior, as poucas fotos que tirei desse momento eu perdi graças a um cartão de memória vagabundo da 25 de março.

Cada passo durava uma eternidade naquela neve toda, e de repente percebemos que as horas estavam passando. Tínhamos passagem para o último ônibus de volta a cidade, se o perdêssemos ficaríamos alí.

Pegamos a estrada novamente, mas agora sem pique, cansados, famintos e com a preocupação das horas. Resolvemos tentar a carona novamente. A cada som de motor que quebrava o silêncio dos Andes, nos colocávamos esperançosamente a “dedar” a carona. E só após o 4o. ou 5o. carro, uma boa alma parou e nos levou até a Puente. Assim que ele parou, reconheci o motorista e seu filho, que estavam no mesmo bar que almoçamos, antes da aventura. Fomos os cinco, amontoados numa pickup tipo F250. Sou grata até hoje.

Apesar de parecer um martírio, eu estava adorando cada minuto alí. Eu pude entender o que é ser livre. Mas eu pensava no meu pai, o que ele sentiria se soubesse que eu estava na beira de uma estrada, no meio do nada, pedindo carona! Mas a culpa foi dele: ele quis que eu desmamasse logo no meu primeiro mês de vida; aos nove meses comecei a andar… agora aguenta.